sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

CRÍTICA - Kitty Paranaguá: Copacabana



A fotografia está no campo da imagem técnica, aquela que usa uma máquina para chegar ao resultado final. Baudelaire disse que ela nunca chegaria à condição de arte. Ele, infelizmente, não teve a oportunidade de conhecer a produção imagética de Kitty Paranaguá. Essa artista, que usa a fotografia como meio de expressão, presenteia-nos sempre com uma sacada sensível, poética e inteligente, ao mesmo tempo que se preocupa com um resultado estético de enorme coerência e felicidade para quem está frente a suas imagens. Arte, com certeza; mas não por serem imagens belas – elas vão além. Num primeiro momento, suas fotos procuram traçar uma crônica sobre um dos lugares mais famosos desse planeta, a Praia de Copacabana, e, em seguida, a artista nos coloca dentro de seus devaneios poéticos, em uma Copacabana que não é um lugar geográfico, mas um lugar dentro de todos nós.

Imagens que falam de muitas Copacabanas, paixões, belezas, mistérios, crenças, humores, relações. O que ela nos apresenta é da ordem do humano, e vemo-nos deslocados para dentro de suas fotografias como se lá estivéssemos de sandálias, corpos salgados e muita areia. A artista procura construir imagens carregadas de um deleite estético, pontos áureos, simetrias, perspectivas bem estruturadas, pontos de fuga; ela nunca abandona o posto de hábil fotógrafa e realizadora de belas imagens, mas essa condição não lhe basta. Ela precisa nos atingir além do prazer retinal, procurando um contato mais íntimo, próximo e profundo.

Não vemos na obra de Kitty uma mensagem empacotada, encerrada; muito ao contrário, ela procura abrir caminhos, deixando mais dúvidas que certezas, numa verdadeira obra aberta. Sua produção aponta para uma preocupação de nos atingir em nossa própria essência, naquilo que somos; partir de um ponto geográfico para chegar à natureza humana, aquilo que nos conecta e nos forma, que faz de nós homens e mulheres. Este é o desafio poético da artista, o que ela, muito habilmente, vem há anos procurando realizar.

É fácil ficarmos envolvidos pelo apelo visual extraordinário de suas fotos e, com isso, corremos o risco de só usufruir parte da mensagem da artista. Se continuarmos atentos, observando suas imagens, perceberemos que ela abre um canal de diálogo, deslocando-nos para dentro de nós mesmos. A fotografia de Kitty Paranaguá, ainda que não seja sua preocupação, cala quem, ainda preso a preceitos modernistas, preocupa-se mais com o suporte e a técnica, relegando a fotografia a um plano inferior, dos técnicos e não da arte. A imagem apresenta-se, incrivelmente, como algo que, mesmo carregado de extraordinário rigor técnico em sua construção imagética, ultrapassa este ponto em busca de uma reflexão daquilo que nos constrói, levantando dúvidas, fazendo perguntas e, felizmente, não deixando resposta definitiva para nada, convidando-nos a fazer parte dessa autoria.



Marco Antonio Portela

Artista Visual, Mestre em Arte, Curador independente e idealizador do MAP (www.museudeartepostal.com.br)

ALBERTO MATTOS - Arte, alquimia e celebração

Candelabro
construído com rolhas de vinho e champagne
Sonhar os objetos.  Esta é a questão que move o universo, construtivo e lúdico, nas obras de Alberto Mattos.  Há trinta anos, este designer e artista, cria e confecciona cenários, maquetes, objetos cenográficos e outros, para efeitos especiais. Seus trabalhos transitam por diversos meios de expressão, e devido a este fato, Mattos adquiriu experiência entre os fazeres (design e arte) elegendo um inusitado repertório de materiais. Atualmente trabalha com reutilização de rolhas de vinho, caixotes, folhas e massas secas, matérias que o artista elege, tendo em vista reaver os seus valores poéticos.

Colecionando os mais diferentes artefatos, geralmente descartados e usados, Mattos propõe ressignificar afetivamente os objetos que elege, colocando-os novamente em circulação. Estas peças que produz se destacam devido aos procedimentos que cria e  utiliza. As caixas de vinho, por exemplo, são trabalhadas como verdadeiros mosaicos compostos de tipologias, brasões e logos, unidos entre si, com uma técnica que se situa, entre a colagem e a marchetaria. 

Segundo o artista, as experiências com os materiais que utiliza, o levam a participar de uma espécie de alquimia, uma “transmutação lúdica” da matéria.   Na serie intitulada o Universo do Vinho, Mattos destaca os materiais que envolvem este senhor das estações, o vinho.  Trabalhar com este universo, diz  ele,  “é uma verdadeira viagem sensorial”.  E nela, o artista percebe que as rolhas revelam tantas nuanças entre o ouro e o vermelho, cores que  utiliza em suas peças.  A mesa Baco, por exemplo, idealizada a partir de caixas de vinho conjugadas a uma sutil palheta, revela em seu centro, as cores gravadas nas rolhas, originárias das diferentes cepas de uvas.  Outro objeto que se destaca nesta série é um imponente candelabro construído com rolhas, de vinho e champagne. É importante notar a iluminação desta peça.  A escolha do artista, uma temperatura de cor dourada, vai de encontro aos valores simbólicos contidos na matéria do vinho e do vinhedo.

Os objetos criados por Alberto Mattos  respiram uma atmosfera de celebração,  que provém não apenas da utilização poética dos materiais, mas principalmente, por compartilharem  intuitivamente da mesa alquímica que o artista nos oferece: a  juventude secreta que brilha  no interior do sonho com os objetos.    



América Cupello

Fotógrafa, curadora e pesquisadora independente. Doutora em Artes Visuais pelo PPGAV – UFRJ.

CRÍTICA - Arte Sobre Escombros

Iniciando o ciclo de mostras da Galeria de Arte Meninos de Luz 2013 o artista visual ACME, morador do Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, onde se situa a galeria, traz mais uma vez sua poética visceral agora vinculada aos desdobramentos engendrados pelo PAC, em especial nas estratégias de ocupação territorial, em que utiliza como matéria-prima de suas obras os vestígios de uma passagem avassaladora do poder público pela área de vivência cotidiana das pessoas em suas comunidades.

A partir dos escombros de casas que foram demolidas (telhas de zinco, telhas vermelhas, tijolos, chapas de aço inox de fogões e geladeiras, etc.), material recolhido com a ajuda das crianças residentes nos locais em que se deu a desapropriação, o artista propõe a transformação em arte, por meio de um gesto simbólico de não-violência, dos vestígios afetivos que por ali restaram. Para isso convidou diversos outros artistas que, como ele, têm ativa participação na Arte Urbana do Rio de Janeiro.

ACME, também conhecido como Carlos Esquivel Gomes da Silva, apresenta-se fiel aos preceitos que ajudou a instituir desde a criação do Museu de Favela (MUF) objetivando valorizar a memória coletiva do seu lugar de pertencimento. Sem dúvida encontramos nesse artista mais que uma simples resistência ao sistema, encontramos uma crítica sintonizada com o mundo à sua volta.



EXPOSIÇÃO ARTE SOBRE ESCOMBROS
Abertura dia 28 de janeiro às 19h
Até 8 de março
Visitação de quarta a sexta das 15 às 19h
sábado das 13 às 17h
GALERIA MENINOS DE LUZ
Rua Saint Roman, 149 – Copacabana – Rio de Janeiro – RJ
e-mail: solar@meninosdeluz.org.br
Tel.: (21) 2522-9524 / 3202-6900



Artista visual, mestre em poéticas visuais pela ECA-USP, curador independente e sócio do Espaço Eu Vira

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

CRÍTICA - Ecos da Bienal


Às vezes vêm à memória certas imagens que vimos aqui, acolá, alhures. Mas também há momentos que uma canção, um som longe, ainda reverbera em nossos pensamentos ocasionalmente. De fato, minhas lembranças para essa página foram motivadas mais por questões conceituais que afetivas e, nesse caso, por conta de questionamentos acerca da interferência que uma obra de arte para ser ouvida pode ter sobre outra de silêncio contemplativo. Lembrei-me de imediato das tantas instalações sonoras que tive a oportunidade de apreciar na última edição da Bienal de São Paulo e de como funcionaram sem prejuízo das individualidades dos demais participantes. Em verdade foram trabalhos que, no meu entendimento, se destacaram justamente pela sua condição, posto que requeressem ser ouvidos. 

                                       Osvaldo Carvalho
Paulo Vivacqua, O Triplo Ohm

Destaco os arranjos de Paulo Vivacqua, brasileiro, em o Triplo Ohm que nos colocava em estado contemplativo com seu ininterrupto mantra, uma espécie de Om hindu, ao mesmo tempo em que brincava com a sonoridade das duas palavras; Katja Strunz, da Alemanha, com o Som da Era Pré-geométrica, nos oferecia o seu concerto de ruídos com instrumentos conectados a uma antena fora do pavilhão com improvisações inquietas de trepidações, interferências, estáticas; Cadu, brasileiro, e sua Partitura III, que embora apresentasse um trabalho de caixinhas de música cujas partituras eram bilhetes de loteria, me fez ouvir sons de um momento de minha infância com seus trenzinhos os quais traziam pequenas hastes flexíveis de metal que iam batendo em garrafas e copos de vidro vazios compondo uma música casual, imprevisível; Marco Fusinato, australiano, que também é músico, com Distorção Imperical, possuía o barulho mais vibrante e corrosivo que pude experimentar condizente com sua estatística caótica em que luz e som concorrem para a intensidade da forma e do conteúdo da obra; Eduardo Gil, venezuelano, em Leituras de Urina trouxe o desapego autoral ao exibir colchões velhos de berços de orfanatos de São Paulo, nos quais se podiam ouvir intuições mediúnicas de acontecimentos atemporais sobre aqueles que passaram pelos colchões; Helen Mirra, americana, com sua Gravação Horária de Som Direcional, Deserto Sonora, Arizona, junto com Ernst Karel, realizou a performance de caminhar registrando sons de hora em hora (7 horas por dia em 11 dias) pelo deserto. O que podíamos sentir em sua instalação era o desconforto do desconhecido quando ignoramos do que se trata e queremos ir embora ou, no fundo, nem queremos tentar. Incomoda.

E assim volto ao início das especulações que fizeram ecoar em mim aqueles sons da Bienal. Por mais que a arte tenha ampliado ou esteja ampliando seus campos de atuação, ainda há “incômodos”, ainda há “ruídos” que muitos não entendem e teimam em querer sintonizá-los.


Osvaldo Carvalho

Artista visual, mestre em poéticas visuais pela ECA-USP, curador independente e sócio do Espaço Eu Vira 

ARTE E CENOGRAFIA - O que resta do invisível

                                        TATIANA FARACHE
Cenário de Anderson Dias para a peça Ifigênia em Áulis.

Um dia nasceu da terra. Um dia despertou do sono das coisas plantadas. Um dia abriu suas janelas e ainda com areia entre os dedos lavou o rosto. Um dia foi lhe apresentado, com honras, o invisível. Um dia entendeu o que sobra dele  e nesse exato momento fez poesia.

Poesia de coisa, poesia que dispensa palavra e dança com as rimas do espaço. Que faz matéria bruta das figuras de linguagem: brinca de metáfora,  quando pinga aço dizendo em letras pequenas que é papel, respira metonímia dizendo  às  porcas e aos parafusos que juntos são homens. Já  as hipérboles desfilam, em passos pequenos ,  estranhamente delicadas, são  flores espalhadas pelo palco que quase flutuam, tão pequenas e de sentido tão grande.

Estes  são os versos do artista e cenógrafo Anderson Dias, todos eles  recitados em silêncio, todos  compreendendo o vazio e sua capacidade de preencher espaços. É o artista pensando o espaço cênico, criando volumes, experimentando texturas, pincelando cores nos lugares certos. É o cenógrafo pensando arte, dando ossos ás carnes,  estruturas para as coisas serem o que devem ser. Portas , janelas, varandas, geladeiras e se necessário até a corda para o enforcado que volta e meia aparece em roteiros trágicos.

Os cenários de Anderson  são discursos sem palavras. Linguagem muda. Conta a história nos detalhes. Não são apenas lugares hipotéticos onde a cena se passa, ele é a cena. Faz parte dela do início ao fim, é ativo, transpirante, se necessário  se despedaça e renasce a cada espetáculo ou então, permanece perene se assim o dialogo estabelece.

Poeta que um dia nasceu artista e que no outro despertou cenógrafo, Anderson Dias guarda as qualidades de todos esses delicados e transformadores fazeres.


Sabrina Travençolo

Cientista Social e integrante do Grupo Garrucha

FOTOGRAFIA - Europa em foco

Paula Erber, Telhados em Belleville
 fotografia pinhole, 2010
O encontro das fotografias da artista visual Paula Erber com a produção fotográfica do jornalista Renato Erber acontece ao incidirem um olhar estrangeiro sobre território e atmosfera europeus numa mesma época.

Quando Paula Erber visitou a França e a Inglaterra e Renato Erber viajou pela França, Holanda, Bélgica e Alemanha, no mesmo ano de 2007, adotaram recursos fotográficos diferentes um do outro para registrar o que eles mesmos definem como “situações afetivas, ao invés de ‘cartões postais’ destes lugares”. Ela usa, com a lata de leite em pó e caixas de cigarrilhas, a fotografia artesanal da Pinhole; e ele, a fotografia digital.

Com técnicas fotográficas opostas – uma considerada rudimentar e a outra uma conseqüência dos recentes avanços tecnológicos – os dois fotógrafos cariocas alcançam o pensamento de Denis Roche quando este afirma que “a fotografia, antes de qualquer outra consideração representativa, antes mesmo de ser uma imagem que reproduz as aparências de um objeto, de uma pessoa ou de um espetáculo do mundo, é em primeiro lugar, essencialmente, da ordem da impressão, do traço, da marca e do registro”.

A impressão, o traço, a marca e o registro dos dois são diferentes entre si, pela forma de apreensão das imagens, ao mesmo tempo em que se assemelham quanto à escolha do que será fotografado. Tanto um quanto o outro estabelecem um diálogo com as respectivas cidades revelando o particular latente no que seria propriamente universal. 

Enquanto na fotografia da Paula Erber o preto e o branco, e os desfocos são proeminentes, concedendo à imagem uma nebulosidade que gera pessoas e lugares velados, identidades ocultas, Renato Erber apresenta situações mais nítidas ao optar pelo colorido, mas que ainda assim permitem que o mistério e o silêncio emanem de algumas fotografias.

As cidades, com suas arquiteturas, trânsitos, inércias e deslocamentos, são apresentadas em panoramas e proximidades, ampliações e detalhes, a partir dos olhares desses viajantes estranhos ao lugar, que elevam o cotidiano e as situações banais vivenciadas numa cidade – e quase imperceptíveis – a uma nova categoria de valor, pelo simples fato de que, como disse Susan Sontag, as “imagens fotografadas não parecem manifestações a respeito do mundo, mas sim pedaços dele”.


Mara Pereira

Pesquisadora de artes visuais

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

LIVRO DE ARTISTA - A carne dos livros e os livros de artistas: entre linhas, peles, pespontos e palavras

                             
Livros de arte por um lado e a arte de fazer livros por outro. Os livros, sem dúvida nenhuma, sempre caminham lado a lado com a arte e muitas vezes se confundem com ela própria, como é o caso, por exemplo, da categoria ambivalente dos livros e cadernos de artistas.

Durante muito tempo os livros especializados em arte ou que portavam reproduções de obras de arte fizeram o papel do “museu imaginário”, descrito por André Malraux, entre os anos 50 e 60. 

A fotografia, enquanto dispositivo tecnológico acabou substituindo os esforços da gravura na função de povoar os livros com reproduções de pinturas, esculturas e de construções arquitetônicas, de diversas épocas e de toda parte do mundo, possibilitando o conhecimento virtual/imagético da produção artística entre povos de várias culturas.

Se por um lado o ofício do livro de arte é o de transmitir e disseminar o conhecimento de obras por meio de imagens, há outra categoria que não deve ser esquecida, em que o ofício da arte – e não apenas em sentido artesanal – está na confecção do próprio livro. 


                                        Luisa Gomes Cardoso
Bispo do Rosário, caderno de artista de Eduardo Denne,
Canteiro de Alfaces e Caza Arte Contemporânea
Diante desta inversão, encontram-se, por exemplo, empreendimentos como o Canteiro de Alfaces: da lombada à costura precisa, entre colas e capas coloridas e/ou monocromáticas, muitas vezes reproduzindo em suas capas imagens de obras de artistas conhecidos, o Canteiro de Alfaces, apresenta uma vasta produção de livros e cadernos personalizados, feitos à mão. 

Já, tratando-se de cadernos e livros de artistas, estes configuram uma categoria híbrida de objetos de arte, uma vez que tanto, pode ser interpretado por seu valor estético quanto por seu viés literário. 

Mais antigos do que se imagina, os cadernos de artistas figuram na história da arte, sobretudo, como preciosos testemunhos para as corajosas aventuras de além-mar, envoltas pela fumaça inebriante do ópio. Descritos através de imagens e palavras precisas, os cadernos de artistas expõem o exotismo e a sedução das culturas dos povos não pertencentes ao velho mundo. É o caso dos cadernos de viagem ao Marrocos de Delacroix, produzidos em 1832. 

Menos desbravadora, mas, não menos tocante, está à poesia encontrada nos desenhos que cobrem inteiramente as páginas dos cadernos de Turner. Rápidas impressões atmosféricas, esboços, e croquis, que atestam toda elegância dos traços do artista.

Para abordar os livros de artista, enquanto categoria objetual é preciso mencionar o estabelecimento da Arte Conceitual. Inúmeros foram os trabalhos realizados com esta concepção de livro-objeto, e que atravessaram a década de 60, até os dias de hoje. 

Poder-se-ia citar, artistas de várias partes do mundo que deram grande contribuição, como por exemplo: Robert Filliou, e seu Poussière de poussière, n. 30-100, de 1977, além de artista alemão Joseph Beuys com Evervess II, de 1968, só para citar alguns artistas que fizeram parte do coletivo Fluxus. 

No Brasil, é imprescindível citar, dentro dessa categoria, artistas de peso e importância histórica como Waltércio Caldas e Paulo Bruscky, além do artista luso-brasileiro Artur Barrio, que chegou a produzir durante a década de 70, os cadernoslivros. 

Este conceito de cadernos-livros é ironicamente explicitado por uma das muitas frases dispersas encontradas nos objetos e que diz o seguinte: "CadernosLivros não são diário de artista".

Talvez não haja, de fato, esse tipo de intimidade, nem de aproximação na obra de Barrio, muito embora, se trate de uma obra complexa e sensorial. Fato que se comprova na elaboração do famoso trabalho “Livro de carne”, de 1978-79, que vem a exemplificar a categoria dos livros de artistas. Talvez um dos mais impactantes e estudados da história da arte brasileira. Visceral como a maior parte das obras de Barrio, o livro feito de carne, atesta com sangue e matéria sujeita à putrefação, a crítica social e política e aborda destemidamente a institucionalização da arte, criando uma obra que se desfaz diante do próprio público, apelando a todos os sentidos.

A escritora e poetisa Ana Cristina César, dizia que seus escritos funcionavam na verdade como cardemos terapêuticos. Nada mais distante da brutalidade orgânica das obras de Artur Barrio, oriunda, em parte, dos dias de repressão sociopolítica e ideológica.

Livros de artistas e cadernos de artistas, livros de arte e a arte de fazer livros, temas e pares que se misturam, se penetram, e por fim se apartam, revelando uma pluralidade quase infinita de formas, funções e significados que ampliam os sentidos e escapam do óbvio. 


Renata Gesomino

Doutoranda pelo PPGAV-UFRJ, curadora e crítica de arte independente.

CRÍTICA - Diante da Montanha – os agregados de Julio Castro

Entre os grandes desafetos dos deuses gregos encontramos um em especial conhecido pela sua fama de driblar a morte e retornar ao mundo dos vivos, pelo que foi condenado a realizar um árduo trabalho que consistia em empurrar uma pedra montanha acima que, tão logo para lá era conduzida, rolava montanha abaixo. Essa rotina se repetia infinitamente. Tratava-se de um castigo para lembrar ao homem, reles mortal, da sua condição voltada ao pequeno mundo de sua vida cotidiana.

DIVULGAÇÃO/AGREGADOS DE JULIO CASTRO
Tal e qual Sísifo, nosso pseudo-herói, Julio Castro engendra suas ações nessa série de trabalhos intitulada Agregados o seu rolar de pedras particular em que vai aparando arestas sem, contudo, dar-se por concluído seu gesto de repetição e acumulação. A cada nova montagem que realiza extrai de suas matrizes outro fôlego daquilo que poderia nos parecer exaurido e nos surpreende com a determinação de quem não esmorece diante da montanha. Ao contrário, ressalta percepções que se mostram inesgotáveis, possibilidades que só o tempo pode projetar sobre a fatura do verdadeiro artista. E nessa construção anti-monotonia está a façanha maior de seu projeto de intrínseca disciplina: resistir aos apelos do contraditório e retificar cada demão com a segura camada de confiança de quem sabe aonde quer chegar. Em uma sucessão de formas e cores muito próximas umas das outras é que nos deparamos com a poética vigorosa centrada então no arranjo que aquelas recebem do artista. Vemos uma profusão genuína de novos símbolos gráficos que, em um diálogo aberto com a teoria do símbolo de Edgar Morin, marcam distinções e conexões sobre a representação do que está além da realidade percebida ou memorizada.

Essa força irresistível que move o artista é o que se procura enxergar diante de uma obra de arte. No caso de Julio Castro percebemos antes seu imaginário que sua técnica, ressaltando seus indícios de trajetória apenas os elementos constitutivos do seu trabalho. Ele nos faz refletir sobre a condição de cada um de nós diante das intempéries em que podemos escolher entre ser a mão que move a pedra ou simplesmente a pedra que rola sem destino.



Artista visual, poeta, curador independente, mestre em Poéticas Visuais pela ECA-USP e sócio fundador do Espaço Eu Vira

RESIDÊNCIA ARTÍSTICA - TERRA UNA levará artista para a Colômbia


Fotografia de Rodrigo Braga, TERRA UNA 2008
As inscrições para o Prêmio de residência artística TAC – TERRA UNA 2013 encerram no próximo dia 13. Pelo sexto ano consecutivo, cinco artistas brasileiros serão contemplados com uma bolsa para desenvolver trabalhos, entre 20 de fevereiro e 12 de março, na Eco Vila Terra Una em Minas Gerais. Ao final, um deles será premiado com uma viagem à Colômbia, para residência de um mês no Residencia en la Tierra. Além disso, os participantes escolhidos vão realizar, ainda no primeiro semestre, uma exposição coletiva de suas obras na galeria carioca TAC - Toulouse Arte Contemporânea, na Lapa (rua Mem de Sá, 319).

A Ecovila TERRA UNA fica em uma área de 48 hectares dentro da APA da Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais. Buscando integrar moradia, trabalho, educação, arte e lazer, o projeto de residência consolida-se a cada edição como um centro educacional transdisciplinar de integração rural-urbana. O objetivo é difundir um modelo de vida mais sustentável. Além das casas dos moradores, a estrutura engloba um salão de vivências, um galpão para atividades práticas, ateliês, dormitórios, camping, cozinha e refeitório comunitários, hortas, viveiro de mudas, plantios de média escala e sistemas agroflorestais, além das belezas naturais das montanhas, florestas, rios e cachoeiras.

Sendo, atualmente, organizado por Nadam Guerra, Domingos Guimaraens e Beatriz Lemos, o Terra UNA já recebeu mais de 70 artistas ao longo das últimas edições. Entre eles: Laura Lima, Rodrigo Braga, João Modé, Paulo Nazareth, Marcos Cardoso, Caroline Valansi, Michel Groisman, Mayra Redin, Brígida Campbell e Julio Callado. As inscrições podem ser realizadas no sitewww.terrauna.org.br . A seleção dos residentes será feita pelos próprios artistas inscritos até o dia 27 de janeiro.


Chandra Santos

Jornalista

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

JULIO FERREIRA SEKIGUCHI - O poeta visual da antroposofia e suas rodas de oração


São inúmeras, ao longo da história, as tentativas de pensadores brilhantes de diversas áreas, em concatenar a racionalidade da ciência materialista com questões metafísicas. No campo das artes visuais, sobretudo, tratando-se de arte contemporânea, essa tendência parece sempre caminhar em busca de um conceito de humanismo renovado.

Rodas de Oração, de Julio Ferreira Sekiguchi
Fato que pode ser relembrado, sem a necessidade de recuar muito na história da arte, a partir das primeiras aquarelas abstratas de Kandinsky ou mesmo no suprematismo de Malevich, onde a apreensão da ausência do objeto importa mais que o próprio objeto, e dessa maneira evocar uma série de poéticas que invertem a lógica do pensamento pragmático ocidental.

Há, novamente, no início do século XX, uma vontade sintomática, presente principalmente nos fundamentos da abstração, de reconciliar o dado espiritual com o dado científico, o que caracteriza uma espécie de zeitgeist (espírito de época) que retorna de tempos em tempos, toda vez que o homem parece desequilibrar a balança cósmica e seus valores universais. 

O que se pode perceber num momento de rápida apreensão de algumas obras do artista plástico Júlio Sekiguchi, é exatamente essa vontade humanista revisitada. Um espírito de época capaz de reabilitar valores já desacreditados presentes nas técnicas artesanais e sofisticadas, em disciplinas variadas, e nos objetos do dia-a-dia. 

Esses valores, que em geral se relacionam diretamente com uma questão afetiva, partiram de profundas pesquisas onde o artista retirou parte de seu repertório tomando como base a leitura de teóricos como: Rudolf Steiner e Wilhelm Reich dando sentido às suas escolhas, em pelo menos dois momentos distintos de sua obra. É o caso de “Modelo para reconstrução de camisa”, que nasce da apreciação a um objeto aparentemente banal, como uma camisa de listras laranja.

No entanto, essa mesma camisa listrada ganha outros valores simbólicos, quando o artista desenvolve, através da técnica da costura e da confecção dos moldes, narrativas pessoais que guardam o significado afetivo intrínseco do objeto. A partir deste processo, a camisa é então, inteiramente descosturada, para se retirar o molde, e em cima do mesmo o artista utiliza uma aquarela dividindo os resultados em quatro pranchas justapostas à camisa original, que é novamente costurada, e retorna ao manequim. Há pelo menos duas questões importantes a serem destacadas com esse trabalho. Uma delas é o resgate da costura como uma prática social comum passada naturalmente entre os membros de uma mesma família. O artista parece querer nos mostrar que essas técnicas são anacrônicas e carregadas de um sentido que transcende o sentido utilitário. Uma outra questão é a canonização da camisa que passa de uma categoria de objeto banal para a categoria de obra-de-arte, quando transportada, por meio da mímeses, para as quatro pranchas.

Já no segundo momento encontram-se as “16 rodas de oração”, onde o observador é convidado a interagir diretamente com os objetos circulares que são colocados sob um suporte de forma a permitir a sua manipulação. 

Todos os objetos foram construídos de forma antropofágica, ou seja, possuem conteúdo e forma ligados a culturas das mais variadas, contendo em seu interior três orações, tanto da cultura ocidental, quanto da cultura oriental. 

O objetivo é fazer a ligação do homem com o universo através da arte e há sem dúvida, um contexto profundamente espiritualizado, mas não religioso, ao se produzir objetos que sejam capazes de armazenar pedidos, súplicas, milagres, etc., e em seguida devolvê-los às forças invisíveis. 

Há também, uma preocupação com as características empíricas da física enquanto disciplina teórica, no sentido de que esses objetos passaram por uma concepção racional/funcional. As rodas são vazadas para que o ar entre e saia por elas, absorvendo e retirando as energias negativas, num fluxo contínuo. Assim como há também um misticismo na escolha sutil dos números das obras (todos múltiplos de três), além da presença de cristais amontoados dentro das bases de todas as 16 rodas de oração, sem que o espectador sequer suspeite dessa presença.   




Doutoranda pelo PPGAV-UFRJ, crítica e curadora de arte independente.

FOTOGRAFIA - A contradição é a essência do ato


CHRISTINA AMARAL, A contradição é a essência do ato.


“A contradição é a essência do ato” (em Octavio Paz). A indecisão, desejos e repulsas, querer e não querer, de Duchamp em terminar a obra O Grande Vidro definem o ato simbólico da entrega da noiva, em um acontecimento solene. Mais do que o desejo, a incerteza e o temor por nada parecer ser marcam o ato perene e eterno. Os dois sapatos, em oposição, trazem ao espectador a angústia da essência desse ato de entrega. 


Gilda Santiago

EXPOSIÇÃO - A Cenografia como ofício

                                      JEFFERSON DUARTE/DIVULGAÇÃO
Exposição “Na Terra de Macunaima” pela Celophane Cultural

Jefferson Duarte nasceu num dia de carnaval de 1963, no subúrbio de Cascadura, no tempo em que os bondes ainda paravam para deixar o bloco passar. Esse dia fará 50 anos no próximo carnaval de 2013.

O menino que já nasceu de óculos sempre desenhou, desde que segurou pela primeira vez o lápis. Quando não tinha papel, ia com sua mãe ao açougue e se debruçava sobre o balcão para pedir as imensas folhas brancas de embrulhar carne, que cuidadosamente preenchia por completo de figuras do seu universo. Até que um dia seu pai lhe presenteou com um imenso quadro negro. Ali o pequeno mundo do papel, ficou imenso, eram cidades, planetas, super-heróis e histórias, desejos que eram desenhados e apagados diariamente religiosamente.

O sonho de uma faculdade foi aos poucos indo pelo ralo, pois aos 14 já trabalhava para ajudar nas despesas da casa e só sobrava tempo pra desenhar.

Quando jovem em plena ditadura, no governo de Figueiredo, é forçado a servir ao exercito. Seu desenho apagou de vez, e quase morre junto com Elis Regina.

Mas um dia o sol voltou a brilhar. Esse sol tinha um nome: teatro. Em São João de Meriti, na baixada fluminense, ele se encontrou novamente. Atuou, dançou, usou o corpo, a mímica e a criatividade como expressão. Mas foi no cenário, quando viu a atuação de uma equipe de cenógrafos e figurinistas que enxergou uma nova possibilidade. Ali ele poderia voltar a criar seus mundos. Começou a pesquisar, sempre foi autodidata, e a idealizar cenários e figurinos para os grupos de teatro amadores da região, fez carnaval, fez estandes cenográficos e utilizou a cenografia para a transformação social, atuando nos projetos Se Essa Rua Fosse Minha do Betinho e Meninas da Calçada.

Num belo dia foi chamado para ajudar na exposição sobre o Profeta Gentileza na UERJ em seguida Estação Cartola no BNDES. O universo se abriu mais uma vez redefinindo o que é o seu ofício até hoje: as exposições. Elas o levaram até São Paulo, ao SESC, aos curadores, vencendo concorrências, usando e abusando da sua construção profissional e sua criatividade. Nesta paulicéia cenográfica desvairada que ele pôde doar ao público sua visão sobre O Chão de Graciliano Ramos, o desbunde carnavalesco de Na Terra de Macunaíma, a Imensidão de Nas Veredas do Rosa. Na cultura popular com o Cordel – a História que o Povo Conta, O Cariri – Sertão cultura, no Choro do Quintal ao Municipal, em Patativa do Assaré e no Batuque na Cozinha.

Enfim o pequeno Jefferson Duarte continua a criar seus mundos, pra passar mensagens e contar histórias pras pessoas, do mesmo jeito de quando criança, no imenso quadro negro que hoje se chama Celophane Cultural, sua produtora.


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

EXPOSIÇÃO - Transfiguração do Rastro

                      Obra de Antonio Bokel na exposição ‘Transfiguração do Rastro’

Antonio Bokel vem se destacando dentro de uma nova geração de artistas no Rio de Janeiro. A coletiva Gramática Urbana, realizada em Março desse ano, trouxe Bokel junto com outros nomes em ascensão como Joana César e Alê Souto.  Em comum, o gosto pelo suporte urbano para intervenções e improvisos que reproduzem a violência expressiva e os ruídos de espontaneidade das ruas. 

Em Transfiguração do Rastro, individual inaugurada no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, Bokel divide em duas salas momentos distintos de sua trajetória de quase uma década. Na primeira, escura, composta de algumas de suas primeiras pinturas, nota-se a filiação direta com expressionismo abstrato norte americano. De Jean Michel Basquiat veio o gosto por traços fortes e cores intensas,  visível na série de  máscaras africanas. 

Suas obras iniciais são marcadas por esse traço firme, pela influencia do grafite e a linguagem direta , integrando também textos às obras. Nelas encontramos um artista lançado à experimentação constante e à procura de uma voz própria, abertamente dialogando com suas fontes.  A vivacidade de formas e cores, entretanto, não corresponde a uma integração absoluta ou passiva à atmosfera hedonista do Rio de Janeiro. Tanto no grito primal de criaturas vorazes e disformes, quanto  na figuração da monstruosidade do sonho libidinal carioca pela sua colossal Globeleza, encontramos Bokel reagindo ao ethos local marcado pela artificialidade das promessas de felicidade instantânea. 

Sua produção mais recente se concentrada em um espaço branco, limpo da agressividade pictórica. Nele Bokel procura o traço essencial, o mínimo e indispensável, abrindo mão da  de cores e movimentos.  Ainda encontramos registros textuais, mas, além de ocasionais, eles apenas complementam a afinidade harmônica do trabalho.

Menos reativo e mais afirmativo, nesses trabalhos Bokel parece dar indícios de estar encontrando um caminho próprio para além do incomodo. O cerceamento da autenticidade individual por sonhos efêmeros de consumo instantâneo ainda estão presentes, mas são figurados e domesticados por formas mais sólidas e austeras. 

Ciente da sua andança errante, marcada por intervenções improvisadas na cidade e contato direto com seus becos e sombras, Antonio Bokel apresenta sua trajetória. Porém, ao invés de forjar nexo e coerência, tão frequente em retrospectivas individuais, Bokel regurgita a essência simbólica do imponderável chamando-a prudentemente de rastro. 



Bruno Garcia

Historiador

DESENHO - Pequeno diário de trabalho. Ficção para vontades de infinito

Pequenas Ascensões’ de Isis Quaresma.
Série de desenhos em ascensão contínua.
Fazendo-me  passar por Isis Quaresma ao seu pequeno diário de trabalho :

Dia 1 -  Dessa tabula rasa, desse branco dormente que respira vontade, um impulso me guia. Dá-se a mim com as formas de um desenho.  Liberta, minha mão se enche da coragem. É mais forte. Um desenho: um desejo. A folha me inspira.  

Dia 2-  Expira e não entendo. É um  movimento , é  minha mão se animando, ganhando vontades, respondendo a leis que já não me pertencem .  Ela sabe que  lhe foi cabido esse  entendimento  que acompanha a humanidade.  Labor. Esse fazer e refazer  eterno do mundo.
 Uma superfície: um desenho.  Um desenho de mim.

Dia 1-  Hoje  compreendi  a necessidade da arte e a contingência de seus meios. A necessidade de um dia atrás do outro, a necessidade de fazer belo o olhar e a contingência do que é Belo. Compreendi ainda o  grande acidente de me colocar em linha. Continuo desenhando , eles crescem, ascendem. Já não me pertencem.

Dia 1- Por que é sempre o começo quando não tem fim.

Dia 1- Chego a provisórias conclusões: a repetição é o trampolim do devir. A certeza de que o sol sempre nascerá não me tira a surpresa de dia-a-dia revê-lo.  Nas teias  que construo me aguardam coisas que eu não sei.  Uma exclamação possível para cada situação imprevisível. 

Dia 1 - A cada olhar vejo-o  diferente,  obra mutante mas sempre igual a si mesmo, contradições inerentes ao estar vivo. Aas  relações continuam. Infinita  é a tela, o papel nunca acaba. A tinta... continuaria se acabasse. Ponho-me ao trabalho quando ele me chama. Não vejo o fim. O ponto final só é possível aqui nessas linhas. E ainda assim, me pergunto: - Será?
Dia 1- ...







Sabrina Travençolo

Cientista Social, Artista plástica e integrante do Grupo Garrucha

FOTOGRAFIA - Magno exercício do olhar


A fotografia tem, em mãos de bons fotógrafos, o poder de transformar o real sem, contudo, alterá-lo em sua essência, de tal modo que uma transcrição fidedigna de um objeto ou de um local pode adquirir um aspecto abstrato pela simples alteração da escala ou do ponto de vista. Da mesma forma, o que é infinitamente pequeno se confunde aos nossos olhos com o infinitamente grande, como as imagens do interior do corpo humano produzidas com o auxílio de microscópios eletrônicos se assemelham às astrofotografias realizadas com telescópios espaciais.

Na série de imagens abstratas que tem desenvolvido ao longo da última década Magno Mesquita explora com sabedoria essa peculiaridade da fotografia de modificar a percepção da escala na ausência de um parâmetro reconhecível capaz de nos permitir uma avaliação mental das dimensões do objeto focalizado. Consegue assim embaralhar as pistas e extrair beleza desde as grandes obras de arquitetura — desmembradas em suas partes mais expressivas, como peças de um quebra-cabeça vistas em separado do conjunto — como também em objetos cotidianos, como vidros de perfume, que passam a adquirir contornos oníricos quando observados extremamente de perto com o auxílio da macrofotografia.

Leonardo da Vinci propunha como exercício de criação a observação das manchas de mofo nos muros, para que os artistas aprendessem a extrair das menores e mais banais coisas, vislumbres de seres e universos insuspeitos. Ao estudar detidamente lanternas e faróis de carros com idêntica atenção, na série Lumínias, Magno Mesquita realizou idêntico exercício do olhar, extraindo da frieza dos elementos industriais imagens de um universo futurísco imaginário. Visões de um fotógrafo que tem olhos de ver e vendo, transforma aquilo que é visto.



Pedro Afonso Vasquez

Escritor, tradutor, fotógrafo e curador.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

ARTES PLÁSTICAS - A Arte de Raimundo Rodriguez. Do caos urbano à recriação do mundo.

   Sandra Moraes
Raimundo Rodriguez, Latifundio, 2011. 160 x 92 cm
Faz aproximadamente vinte anos que conheço Raimundo Rodriguez e durante este tempo venho acompanhando sua trajetória como artista plástico, sempre que possível indo as suas exposições ou através das notícias que surgem na mídia sobre seu trabalho. De suas criações mais recentes posso dizer que as percebo como uma síntese de sua obra, da qual os elementos mais exuberantes e barrocos de momentos anteriores deram lugar a uma linguagem mais contida, contudo não menos expressiva. Por outro lado, apesar de se apresentarem no âmbito da pintura, guardam muito da característica de “objeto” de suas obras mais antigas, além, é claro, de serem compostas também por materiais reciclados, oriundos de contextos outros, para não dizer do próprio lixo. Pois Raimundo sempre soube ver um potencial de arte nos materiais mais diversos, transformando coisas as quais poucos dariam importância em composições ricas de informação plástica e simbólica.

Nisto seu trabalho se inscreve na linhagem que, no século XX, começa com Braque e Picasso, com seu Cubismo Sintético, repleto de colagens de materiais extrapictóricos, que tornavam cada natureza morta em algo “real”, possuidora de uma “verdade material” constituída por elementos concretos da vida aplicados à pintura. Esta utilização dos mais diversos materiais colados à superfície da pintura se estendeu aos dadaístas, já num contexto diferente, de “antiarte”, vindo a se tornar nos revolucionários ready made de Duchamp. Outros artistas, em outros momentos e com propostas diversas, também lançaram mão de materiais retirados dos restos da sociedade de consumo, como os ligados à Arte Povera, assim como vários daqueles ligados à Pop Art.

Pode-se afirmar que no mundo contemporâneo esta é uma prática quase que obrigatória para muitos artistas, pois tudo, literalmente tudo, se tornou material para a arte. Contudo, o que diferencia a obra de cada artista são três requisitos fundamentais: 1º - talento; 2º - a intenção; 3º - saber como articular formalmente o material que se tem em mãos. Estes requisitos são visíveis em toda a obra de Raimundo Rodriguez, que sabe manusear seus materiais, tanto os tradicionais quanto os menos ortodoxos, com muita imaginação e conhecimento de causa, transitando naturalmente, na criação de suas obras, do mundo sofisticado da arte “erudita” ao não menos complexo e repleto de significados mundo da “arte popular”.

As obras mais recentes em questão, simplesmente chamadas de “Obras Inéditas” (apresentadas em individual na antiga sede da Caza Arte Contemporânea, na Rua do Resende, em janeiro deste ano), exemplificam isto claramente ao reconstruírem com rigor compositivo e cromático a imagem do nosso mundo urbano e caótico. Neste contexto, as cores e texturas “naturais” dos objetos, praticamente utilizados como foram coletados - as folhas abertas das latas de tinta -, são esta referência a nossa urbs e seu universo de comércio, indústria, trabalho, trânsito, dinheiro, moradia, pobreza, riqueza, vida, morte, lixo e reciclagem. Mas tudo isso só ganha um real valor artístico por ter sido coerentemente articulado numa linguagem que, derivada do abstracionismo geométrico, não se deixa, no entanto, aprisionar em seus limites.

Esta é a obra de Raimundo Rodriguez, um artista aplicado como poucos ao seu métier, fazendo da sua vida e da sua arte uma unidade inseparável. Que prossiga sempre com sucesso em sua carreira perenemente criativa.


Ricardo A. B. Pereira
Artista Plástico e Mestre em Artes Visuais pela EBA/UFRJ

FIGUREIROS DE TAUBATÉ - Décio de Carvalho - entre o popular e o erudito.

O debate entre tradição e mudança é, provavelmente, o que mais rendeu frutos quando se fala em arte e cultura popular. O artista taubateano Décio de Carvalho Júnior, figureiro de tradição, após mais de três décadas de trabalho circula com desenvoltura em meio a essa discussão e mostra, por meio de suas obras, que tradição e mudança são os dois lados de uma mesma moeda.
Décio pertence ao grupo de artistas conhecidos como "figureiros de Taubaté", que utilizam, além do barro cru como a principal matéria prima, cores vivas, em especial a tonalidade azul ultramar. Possuidores de um repertório de figuras que circula pelo mundo rural tradicional, presente na memória viva desses artistas, e pelo contexto urbano em que estão inseridos, privilegiando as técnicas de modelagens em barro durante suas criações

Presépio de Décio de Carvalho
Egresso dessa perspectiva, Décio de Carvalho inova ao inserir técnicas escultóricas em suas obras, mas sem deixar de lado temáticas tradicionais como as figuras de presépios. Aliás, derivam delas o termo que dá nome ao grupo, "figureiros".
O artista mescla o aprendizado informal adquirido no convívio diário com figureiras tradicionais moradoras do bairro onde cresceu com o aprendizado formal realizado durante a adolescência em uma escola de arte de Taubaté (SP).
Do aprendizado informal derivam as temáticas que abordam a religiosidade, o cotidiano caipira do interior de São Paulo e as festividades populares, além do que se pode chamar de um ethos dos figureiros. Pois ser figureiro não significa apenas compartilhar temáticas e técnicas, trata-se de compartilhar também uma visão de mundo, sentimentos e práticas que são adquiridas socialmente. Do aprendizado formal Décio deteve o saber técnico relativo às proporções e à pintura.
Mas apenas a capacidade criativa deste artista foi capaz de equilibrar esses diferentes saberes resultando em obras que incorporam o ethos dos figureiros. É justamente essa competência artística que faz de Décio de Carvalho um precursor em um novo estilo de trabalho entre os figureiros de Taubaté e mais uma vez a mudança só vem a colaborar na perpetuação da tradição. 


Valéria Aquino

Antropóloga - Instituto de Artes/UERJ

LUIS TRIMANO - O Negro

O Negro, de Luis Trimano


A série de desenhos intitulada O Negro do ilustrador argentino Luis Trimano, concebida entre os anos de 1998 e 2001, revisita as fotografias do Português Christiano Júnior, produzidas no Rio de Janeiro do século XIX.

Composta de 32 desenhos em preto e branco, feitas com nanquim em bico de pena, pincel e caneta esferográfica sobre papel, nas dimensões de 1,00 x 0,80m, Trimano trabalha com imagens que ligam a história da arte e da iconografia, alcançando o espaço poético, através da exposição dessas imagens no Museu Nacional de Belas Artes (RJ), em 2005.

A produção dessa série específica surge a partir de uma visita ao Museu Histórico da Praça XV, local onde foi montada uma pharmacia de manipulação do século XIX e algumas salas onde foram mostrados objetos de uso cotidiano, como mobília, armas e ferramentas da época. Justamente numa dessas salas Trimano se depara com as fotografias produzidas por Christiano Júnior e fica interessado em analisar e trazer para a contemporaneidade um diálogo com as fotografias daqueles negros.

Nessa perspectiva, Trimano se coloca como aquele que olha para a cultura do outro como espectador, analista e relator do acontecido, que narra visualmente seu pensamento. O que ele e Christiano possuem em comum é esse olhar para a cultura negra. Olhares certamente diferentes, com representações e técnicas diferentes.

Para discutir essa história, essa sociedade e os tempos atuais, Trimano recorre à elementos visuais como bigornas, correntes, arame farpado e discute a questão do negro através de costuras, amarras, colagens e montagens presentes em seus desenhos. Trata-se de um trabalho de cunho antropológico que cria um diálogo entre fotografia, História da Arte e iconografia do corpo do negro, na cidade do Rio de Janeiro.

Nessa encontramos uma ponte entre os séculos XIX e XX, entre as fotografias de Christiano e a ilustração de Trimano. Olhares e reflexões que se encontram sob o aspecto crítico e artístico a respeito do negro na cidade do Rio de Janeiro. Em O Negro, Trimano revisita Christiano e traz para a contemporaneidade uma discussão sobre valores, poder e cultura.



Emmanuelle Dias Vaccarini

Doutoranda em Artes Visuais PPGAV-EBA-UFRJ

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

EXPOSIÇÃO - Antes do Fim do Mundo

Pássaro Afro-brasileiro - 
Ricardo Pereira, cerâmica ,
 30 X 41,5 cm, R$ 300,00.
Em outro momento, nesta página, antecipei a efervescência em que se encontra a arte no Rio de Janeiro. Salientei então o papel dos artistas como atores, não coadjuvantes, mas principais, de uma cena cultural que só veio a ganhar com os acréscimos dados por eles no que se refere às ações marcantes tanto no campo gerencial como logístico, na idealização e execução de projetos de grande porte e também empresariais e de autogestão.


Série "Desenho Sem Fim" 
 Isis Quaresma
lápis de cor s/ papel ,
 21 x 29,7 cm, R$ 300,00
Mas o que quero chamar a atenção é para as mobilizações de circuitos, espaços e ateliês de arte que neste final de ano promovem suas pequenas “feiras” de arte, como é o caso, por exemplo, do Circuito Oriente em Santa Teresa que dia 19, quarta, a partir das 17h até as 22h, estará promovendo o evento Until the End of the World – Antes do Fim do Mundo, uma sacada de marketing muito espirituosa e que brinca com o zunzunzum de que o mundo acabará dia 21 de dezembro segundo o calendário Maia. Seria, portanto a oportunidade de realizar um último desejo: possuir uma obra de arte. Com preços variando entre 300 e 3000 mil reais os espaços Canto da Carambola, Estudio Dezenove, Ateliê Oriente, Espaço Eu Vira e Casalegre receberão a participação especial dos artistas da CAZA Arte Contemporânea e estarão juntos vendendo suas obras.

Brasil - Jefferson Svoboda 
porcelana policromada ,
 25 cm de diâmetro , R$ 180,00
Vale a pena conferir e adquirir um mimo diferenciado. Afinal, vai que o mundo acaba mesmo?

Canto da Carambola: Rua do Oriente, 123 tel.: 2210-0289
Estudio Dezenove:Travessa do Oriente, 16a tel.: 2232-6572
Ateliê Oriente: Rua do Oriente, 414 tel.: 3495-3800
Espaço Eu Vira: Rua Aarão Reis, 16a tel.: 9884-8205
Casalegre: Rua Monte Alegre, 







Artista visual, mestre em poéticas visuais pela ECA-USP, curador independente e sócio do Espaço Eu Vira